no próximo domingo, 04.jul.2026, às 17h00, o Brasil enfrenta a Noruega pelas oitavas de final da Copa do Mundo. mata-mata. daqueles jogos em que noventa minutos parecem durar uma semana inteira. e há um detalhe curioso: vencer os noruegueses significa também espantar um fantasma que insiste em rondar a Seleção há 24 anos.
engraçado como o futebol tem dessas coisas. basta um adversário aparecer do outro lado do campo para a memória abrir uma gaveta que a gente nem lembrava que existia.
a espera por esse confronto me levou direto para os anos 90. levou-me à banda a-ha, à canção Take On Me e ao dia em que Ribeirão Preto entrou definitivamente na minha história. a chamada Califórnia Brasileira.
naquele tempo eu trabalhava no Estadão, divulgando o Jornal da Tarde, que, em 1991, completaria 25 anos de existência. nossa missão era apresentar o jornal durante a FEAPAM ~ Feira Agropecuária da Alta Mogiana. trabalho é uma palavra séria demais para definir aqueles dias. havia muito esforço, é verdade, mas também havia o encantamento de ver milhares de pessoas circulando pela feira, levando o jornal debaixo do braço e descobrindo, entre um estande e outro, que a boa notícia também podia ser distribuída em papel.
o resultado não poderia ter sido melhor. a divulgação foi um sucesso daqueles que a gente só percebe de verdade quando olha para trás e entende que algumas viagens rendem muito mais do que metas cumpridas. rendem histórias que continuam vivas décadas depois.
para lá fomos eu e meu amigo ~ e “chefe” [ele gostava mais da amizade do que da autoridade], Hamilton da Rocha Neves, o professor “H”. passamos uma semana colecionando histórias que, na época, pareciam apenas exageros de juventude. hoje percebo que eram matéria-prima para a saudade.
Ribeirão tinha uma vocação curiosa para fazer qualquer visitante acreditar que a vida acontecia sempre do lado de fora de casa. bastava anoitecer.
e foi ali que nasceu meu primeiro encantamento: não por uma pessoa, mas por uma música. Take On Me, da banda norueguesa a-ha, explodia nas rádios e escapava pelas portas abertas dos bares como quem não pedia licença para fazer parte da vida de ninguém. bastava caminhar pelo entorno do Deck Delícia, na Avenida Portugal, cruzando a Antônio Diederichsen, para perceber que a cidade tinha sua própria trilha sonora.
o Balão do Deck era um pequeno universo. ali ficava o Luna Bar, um lugar que parecia desafiar as leis da física ~ e da sede. a chopeira tinha inventado sua própria ciência: sobre a mesa havia um marcador, uma espécie de hodômetro etílico, que registrava cada centímetro de chope servido. a caneca era lavada na própria máquina e devolvida às mãos do freguês congelante, como se tivesse acabado de sair de um inverno norueguês. praticamente não existiam garçons. bastavam o barman, a chopeira e o DJ. cada um dominava seu ofício com a precisão de quem sabia que a noite não precisava de mais ninguém. a conta não era feita por copos, mas pelo caminho que o chope percorria até desaparecer da caneca. beber, ali, era quase uma modalidade esportiva. e havia também a mesa de sinuca, onde toda partida começava entre risos e terminava com a solenidade de uma final de campeonato.
mais adiante, a Down Town fazia fama como uma das casas noturnas mais emblemáticas da cidade. e, um pouco mais distante, na Avenida Francisco Junqueira, perto do Viaduto José Sarney, ficava a Zoom. até hoje, nenhuma domingueira conseguiu desalojá-la do primeiro lugar nas minhas lembranças.
mas a Noruega daquela época não morava apenas nos alto-falantes.
ela tinha nome de música.
e tinha nome de gente.
foi no Luna Bar que ouvi Take On Me pela primeira vez, acompanhado da minha grande amiga Maris. toda grande história de amor costuma começar com um olhar. a nossa resolveu inovar e começou com um pedido de chiclete.
ela perguntou se eu tinha um.
não tinha.
em compensação, ofereci uma bala Halls.
ela aceitou.
talvez ela imaginasse que eu lhe entregaria a bala na mão, como recomenda o velho manual da boa educação. mas juventude nunca foi muito chegada a manuais. desembrulhei a Halls, levei-a aos meus lábios e a ofereci dali mesmo. ela aceitou sem pedir explicações. e foi assim que aconteceu o beijo.
pensando bem, aquele deve ter sido o primeiro empate entre Brasil e Noruega muito antes desta Copa. um a um. boca a boca. sem prorrogação, sem VAR e, felizmente, sem torcida para atrapalhar.
no domingo não haverá empate. alguém seguirá adiante e outro voltará para casa. mas, se depender das lembranças que os noruegueses me deixaram, emoção não vai faltar.
naquele instante, Take On Me deixou de ser apenas uma música. virou fotografia. perfume. endereço permanente da memória.
o tempo fez o que sempre faz. mudou a cidade, mudou a calçada por onde andávamos, mudou a gente e até os fantasmas da Seleção ganharam novos rostos. mas existem canções que se recusam a envelhecer. elas apenas esperam, pacientemente, o momento exato de nos encontrar outra vez.
por isso, quando a bola rolar neste domingo, talvez muita gente enxergue apenas Brasil e Noruega disputando uma vaga nas quartas de final.
eu, não.
eu provavelmente vou ouvir, outra vez, os primeiros acordes de Take On Me, atravessar trinta e seis anos num piscar de olhos e agradecer à Noruega por uma coincidência rara: poucas seleções conseguem despertar lembranças tão bonitas antes mesmo de o juiz apitar o início da partida.
e, se o Brasil vencer, melhor ainda.
há fantasmas que merecem ser derrotados.
mas há lembranças que a gente torce para jamais perder de vista.
