LuzeAZEVEDO
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O Comum que só o Tempo Ensina

Comum por Escolha, Comunidade por Vivência.

é entender que já não precisamos vencer todas as discussões; basta encontrar quem caminhe na mesma direção.

existem palavras que pertencem aos dicionários. outras, pertencem à vida. e, vez ou outra, a vida resolve discutir com o dicionário. foi exatamente isso que aconteceu comigo quando parei diante de uma cena que falava de comunidade.

O Comum que só o Tempo Ensina

às vezes, não é um livro nem uma aula que muda a forma como enxergamos uma palavra. basta um vídeo de poucos segundos. basta uma fotografia. basta um instante em que muita gente sorri pelo mesmo motivo para que a gente descubra que, talvez, o significado esteja muito além do dicionário.

as certezas ficaram menores e as perguntas, maiores.

há palavras que aceitamos durante a vida inteira sem nunca desconfiar delas. repetimos seus significados como quem recita uma verdade pronta. até que um dia uma fotografia, um vídeo ou um simples sorriso nos obriga a interromper o caminho e perguntar: será que essa palavra ainda significa a mesma coisa para mim?

gosto de me desafiar. toda vez que uma imagem ou um vídeo cruza o meu caminho, recorro às metáforas para tentar traduzir aquilo que sinto. quase nunca me contento com a superfície. gosto de procurar o que está escondido atrás do que os olhos veem.

desta vez, fui provocado a refletir sobre a palavra comunidade. sei que sua origem vem do latim communitas ~ “qualidade do que é comum”, “vida compartilhada”. mas confesso que, hoje, essa definição já não me basta. quando vejo uma fotografia ou um vídeo de pessoas sorrindo e “apenas” comemorando alguma coisa, sinto que existe uma camada além da etimologia.

o Brasil não foi hexacampeão. ainda assim, 99% das pessoas desejavam comemorar uma vitória. bastou que 1% alcançasse um resultado diferente para que a festa deixasse de existir. aquela conquista não era da comunidade; era de uma parte dela. afinal, um por cento não representa aquilo que é compartilhado por todos.

longe de mim querer corrigir a língua, reinventar a etimologia ou desafiar os dicionários. mas, se me fosse concedida a liberdade poética de propor outro olhar, eu ousaria dizer que comunidade também pode ser entendida como a junção de comum + idade.

não a idade contada pelos anos da certidão, mas aquela etapa da vida em que descobrimos que já não precisamos vencer todas as discussões. basta encontrar quem caminhe na mesma direção.

porque o que nos faz comunidade, nessa idade, não é pensar exatamente igual. é reconhecer, no outro, uma história que conversa com a nossa, ainda que tenha sido escrita com personagens diferentes, cenários diferentes e imagens diferentes.

talvez a verdadeira comunidade não seja formada pela unanimidade das opiniões, mas pela maturidade de compartilhar valores, afetos, dúvidas e esperanças.

fica, então, apenas uma provocação.

comunidade talvez seja isso: quando o “comum” deixa de ser aquilo que todos possuem e passa a ser aquilo que todos estão dispostos a compartilhar.

sou contador de estórias e não aceito ~ hoje, hoje não! ~ o rótulo de escritor.
escritor, para mim, é quem mora nas bibliotecas. eu moro nas ruas, nos balcões dos botecos e nas mesas onde o café esfria enquanto a conversa esquenta.
meu apego pelas palavras nasce ali, onde a vida acontece sem revisão e cada boa estória sempre encontra alguém disposto a aumentá-la só um cadinho mais.
um Santista, vivendo e aprendendo a jogar; nem sempre ganhando; nem perdendo; mas, aprendendo a jogar!
Luze Azevedo | eco.das.letras

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Luze Azevedo

Luze Azevedo é contador de estórias, cronista e criador de projetos culturais. Transita entre a literatura, o jornalismo cultural e a educação emocional, sempre com o ouvido colado no cotidiano e o olhar atento às pequenas cenas que dizem muito.

É autor de Endora, Novas Memórias, obra revisitada trinta anos depois do primeiro lançamento, e criador de narrativas como Crônicas que GPS não registra e do personagem Frei e.uBer, que observa o mundo a partir do banco da frente de um carro em movimento.

Escreve para blogs e projetos autorais, desenvolve conteúdos educacionais e literários, e mantém presença ativa nas redes, especialmente no Instagram, onde publica capítulos, crônicas e reflexões.

A essência do seu trabalho reside na escuta atenta, na força da memória e no poder da palavra despojada: aquela que, sem alarde, que ecoa em silêncio e permanece.