gosto de me desafiar. toda vez que uma imagem ou um vídeo cruza o meu caminho, recorro às metáforas para tentar traduzir aquilo que sinto. quase nunca me contento com a superfície. gosto de procurar o que está escondido atrás do que os olhos veem.
desta vez, fui provocado a refletir sobre a palavra comunidade. sei que sua origem vem do latim communitas ~ “qualidade do que é comum”, “vida compartilhada”. mas confesso que, hoje, essa definição já não me basta. quando vejo uma fotografia ou um vídeo de pessoas sorrindo e “apenas” comemorando alguma coisa, sinto que existe uma camada além da etimologia.
o Brasil não foi hexacampeão. ainda assim, 99% das pessoas desejavam comemorar uma vitória. bastou que 1% alcançasse um resultado diferente para que a festa deixasse de existir. aquela conquista não era da comunidade; era de uma parte dela. afinal, um por cento não representa aquilo que é compartilhado por todos.
longe de mim querer corrigir a língua, reinventar a etimologia ou desafiar os dicionários. mas, se me fosse concedida a liberdade poética de propor outro olhar, eu ousaria dizer que comunidade também pode ser entendida como a junção de comum + idade.
não a idade contada pelos anos da certidão, mas aquela etapa da vida em que descobrimos que já não precisamos vencer todas as discussões. basta encontrar quem caminhe na mesma direção.
porque o que nos faz comunidade, nessa idade, não é pensar exatamente igual. é reconhecer, no outro, uma história que conversa com a nossa, ainda que tenha sido escrita com personagens diferentes, cenários diferentes e imagens diferentes.
talvez a verdadeira comunidade não seja formada pela unanimidade das opiniões, mas pela maturidade de compartilhar valores, afetos, dúvidas e esperanças.
fica, então, apenas uma provocação.
comunidade talvez seja isso: quando o “comum” deixa de ser aquilo que todos possuem e passa a ser aquilo que todos estão dispostos a compartilhar.
