donaMãe, também conhecida como Zina
a mudança que você quer
Aaron Blaise desenhou. durante anos, carregou dentro dele a história de um urso polar solitário que não encontrava companhia. até que o urso teve uma ideia ~ já que não encontrava um amigo, faria um.
de neve.
tem dores que não passam. a gente apenas aprende a carregá-las de outro jeito ~ às vezes, transformando o que dói em alguma coisa que ainda possa fazer companhia.
talvez o que haja de mais divino no ser humano seja justamente a capacidade de criar alguma coisa onde antes havia apenas vazio.
existem dores que não passam; perdas que a gente pode até tentar disfarçar por fora, mas que continuam morando dentro. apenas aprendem a morar em outro lugar.
Aaron Blaise perdeu a esposa, Karen, em 2007. depois disso, atravessou um longo inverno de solidão e luto.
há quem, diante da ausência, se entregue à depressão, ao álcool, às drogas. há quem se feche. há quem tente seguir como se nada tivesse acontecido. cada pessoa inventa, como pode, uma maneira de continuar respirando quando alguém leva consigo uma parte do nosso mundo.
Blaise encontrou a sua na criação.
por anos, amadureceu uma ideia: Snow Bear, a história de um urso-polar solitário que, incapaz de encontrar companhia, resolve criar um amigo de neve.
e então desenhou.
durante três anos, cinco dias por semana, cerca de quarenta horas ou mais de trabalho. sozinho, fez mais de 11 mil desenhos até concluir o filme, em 2024.
talvez Snow Bear seja, de algum modo, uma autobiografia sem nomes.
um urso solitário, uma ausência impossível de explicar, a necessidade de inventar alguma forma de companhia.
uma história sobre perda, solidão, esperança e reencontro. mas, sobretudo, sobre o que fazemos quando a vida nos coloca diante de um vazio que parece grande demais para caber dentro da gente.
Aaron Blaise não tentou apagar o luto.
desenhou sobre ele.
e talvez exista nisso uma pequena lição: nem sempre conseguimos mudar aquilo que nos aconteceu. às vezes, o que podemos fazer é pegar a dor pelas mãos e transformá-la em alguma coisa que ainda tenha beleza.
deixo aos meus amigos este pequeno trecho, com pouco mais de um minuto.
mas, se a solidão apertar, rs!, assista ao filme inteiro.
talvez ele não espante as mágoas ~ mas pode fazer uma coisa igualmente importante: ficar um pouquinho ao nosso lado.
a vida tem dessas coisas.
às vezes a gente procura uma história para passar o tempo e acaba encontrando um pedaço da própria história escondido dentro dela.
mas, se a solidão apertar, rs!, não se contente com o aperitivo.
assista ao filme inteiro.
quem sabe o urso não faça companhia a você também.
