LuzeAZEVEDO
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donaMãe, também conhecida como Zina.

amigos guardado para nós

Milton Nascimento cantou que amigo é coisa pra se guardar. e eu não estou falando daqueles amigos que a gente conquista num curso de formação, daqueles que chegam acompanhados de apostilas, provas e, ao final, um certificado. não. não é dessa formação que estou falando.

donaMãe, também conhecida como Zina

amigos que a vida parece ter guardado para nós

amizade não é apenas estar junto quando tudo vai bem. é lembrar, mesmo de longe. é perguntar sem que seja preciso pedir. é rir das mesmas bobagens, dividir silêncios, oferecer o ombro e, às vezes, simplesmente permanecer.

amigos que a vida parece ter guardado para nós
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amigos que a vida parece ter guardado para nós

sabe aquela faculdade que forma professores, médicos, engenheiros, jornalistas ou profissionais de qualquer outra área. não é dela que estou falando. falo de uma faculdade maior ~ aquela que não entrega diplomas, mas aprimora a gente como ser humano.

a faculdade da convivência, das descobertas, das mudanças, dos sonhos e das escolhas. a que ensina, muitas vezes sem quadro-negro nem professor, que viver também é aprender a ser.

algumas amizades que parecem nascer com a gente.

a gente abre os olhos para o mundo e, de algum modo, já sabe que algumas pessoas estarão ali. são os amigos do berço ~ mãe, pai, irmãos, os primeiros companheiros de viagem. gente unida não apenas pelo sangue, mas pelas afinidades que, com o tempo, a vida vai revelando.

depois vêm os amigos da escola.

aqueles que caminham de braços dados, dividem a merenda, emprestam o lápis, ajudam na tarefa [ou, dependendo do caso, deixam a gente copiar a resposta]. amizades que nascem no recreio e que, para nossa surpresa, às vezes atravessam décadas.

mais tarde chegam os amigos da faculdade.

não necessariamente daquela faculdade que forma professores, médicos, engenheiros, jornalistas ou profissionais de qualquer outra profissão. falo de uma faculdade maior ~ aquela que aprimora a gente como ser humano.

a faculdade da convivência, das descobertas, das mudanças, dos sonhos e das escolhas.

e há ainda aquelas amizades que a vida nos apresenta já adultos. pessoas que chegam por causa de um curso, de um trabalho, de uma experiência qualquer e que, sem que a gente perceba exatamente quando aconteceu, passam a ocupar um lugar dentro da nossa história que parece ter sido reservado para elas desde sempre.

foi assim que conheci Ione e Leonildes, algumas das minhas amigas do curso do Ceseep ~ Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular.

eu não participei do curso. não vivi, como elas viveram, cada etapa daquela experiência de transformação. fui apenas um espectador privilegiado ~ desses que ficam do lado de fora, mas acabam se envolvendo tanto com o que acontece lá dentro que, de repente, já não sabem mais exatamente de que lado estão.

acompanhei suas histórias, suas descobertas, suas mudanças. ouvi relatos, compartilhei conversas, ri de algumas coisas, pensei em outras. fui me empolgando com aquilo que elas viveram.

e aconteceu uma coisa curiosa.

de tanto ouvir, participar, rir, conversar e me envolver, em algum momento comecei a sentir que eu também tinha estado lá.

talvez no berço.

talvez no ensino fundamental.

quem sabe no ensino médio.

e, se não foi em nenhum desses lugares, com certeza foi naquela faculdade de que falei antes.

não a faculdade que entrega diploma.

a faculdade que entrega gente.

porque talvez seja disso que o mundo mais precise: lugares onde a gente aprenda não apenas uma profissão, mas o valor de estar com o outro. de ouvir. de compartilhar. de mudar. de crescer. de descobrir que ninguém atravessa a vida sozinho.

foi assim que Ione e Leonildes chegaram até mim.

sem pedir licença, como chegam as coisas verdadeiramente importantes.

e hoje, olhando para essa fotografia, tenho a impressão de que não as conheci em um curso.

talvez tenha sido apenas um reencontro.

como se, em algum lugar que a memória não alcança, nós três já tivéssemos sentado juntos antes.

e a vida, distraída, apenas tivesse demorado um pouco para nos colocar novamente na mesma fotografia.

sou contador de estórias e não aceito ~ hoje, hoje não! ~ o rótulo de escritor.
escritor, para mim, é quem mora nas bibliotecas. eu moro nas ruas, nos balcões dos botecos e nas mesas onde o café esfria enquanto a conversa esquenta.
meu apego pelas palavras nasce ali, onde a vida acontece sem revisão e cada boa estória sempre encontra alguém disposto a aumentá-la só um cadinho mais.
um Santista, vivendo e aprendendo a jogar; nem sempre ganhando; nem perdendo; mas, aprendendo a jogar!
Luze Azevedo | eco.das.letras

existe uma coisa bonita de se descobrir, depois de tantos caminhos percorridos: algumas pessoas deixaram de ser apenas parte da nossa caminhada ~ tornaram-se parte de quem somos.

Milton Nascimento tinha razão: amigo é coisa pra se guardar.

não numa gaveta, nem numa fotografia.

guarda-se no lugar mais difícil e mais bonito que existe: dentro da gente.

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Luze Azevedo

Luze Azevedo é contador de estórias, cronista e criador de projetos culturais. transita entre a literatura, o jornalismo cultural e a educação emocional, sempre com o ouvido colado no cotidiano e o olhar atento às pequenas cenas que dizem muito.

é autor de Endora, Novas Memórias, obra revisitada trinta anos depois do primeiro lançamento, e criador de narrativas como Crônicas que GPS não registra e do personagem Frei e.uBer, que observa o mundo a partir do banco da frente de um carro em movimento.

escreve para blogs e projetos autorais, desenvolve conteúdos educacionais e literários, e mantém presença ativa nas redes, especialmente no Instagram, onde publica capítulos, crônicas e reflexões.

a essência do seu trabalho reside na escuta atenta, na força da memória e no poder da palavra despojada: aquela que, sem alarde, que ecoa em silêncio e permanece.