há amores que duram pouco e envelhecem rápido. outros sobrevivem ao tempo porque deixam de ser namoro e passam a morar na memória. a história de Marianne Ihlen e Leonard Cohen pertence a essa segunda categoria. não foi um conto de fadas. foi melhor. foi uma vida.
tudo começou em Hydra, uma pequena ilha grega onde o relógio parecia caminhar descalço. no início da década de 1960, artistas, escritores e sonhadores chegavam ali fugindo do barulho do mundo. não buscavam fama. buscavam silêncio. às vezes encontravam uma boa ideia. às vezes encontravam alguém.
Leonard Cohen desembarcou em abril de 1960. era um jovem poeta canadense, ainda distante dos grandes palcos, carregando na bagagem mais perguntas do que certezas. Hydra oferecia aquilo que toda alma criativa procura em algum momento da vida: tempo. e tempo, quando encontra um poeta, costuma render versos.
Marianne Ihlen já vivia na ilha havia alguns anos. norueguesa, chegara ao lugar acompanhando o marido, o escritor Axel Jensen, e o filho pequeno. mas, como acontece com uma frequência desconcertante, foi abandonada antes mesmo de entender onde terminava o casamento e começava a solidão.
dizem que Leonard a encontrou na única mercearia da ilha. Marianne chorava discretamente enquanto segurava o filho nos braços. ele a convidou para tomar um vinho ao sol.
repare na simplicidade da cena.
não foi um jantar à luz de velas.
não houve violinos.
nem frases decoradas.
apenas um homem, uma mulher, uma criança e um copo de vinho.
às vezes o amor entra na nossa vida pela porta da frente. outras vezes, chega pela mercearia.
os dois passaram a viver juntos entre idas e vindas. Hydra era um lugar de poucas facilidades. muitas casas não tinham eletricidade. água encanada ainda era luxo. o dinheiro quase nunca sobrava.
e talvez por isso sobrasse tanta vida.
enquanto Marianne cuidava da casa, do menino e dos dias, Leonard escrevia. ali nasceram poemas, romances e algumas das canções que mais tarde atravessariam o mundo. ela não era apenas inspiração. era porto. era o intervalo entre uma palavra e outra. era o lugar para onde um poeta voltava quando os versos não sabiam mais o caminho.
foi ali que nasceram canções como So Long, Marianne, Bird on the Wire e Hey, That’s No Way to Say Goodbye.
curioso pensar que Bird on the Wire talvez seja uma das definições mais honestas do amor. ninguém permanece livre porque nunca amou. permanece livre porque encontrou alguém que nunca lhe cortou as asas.
o relacionamento, naturalmente, conheceu seus invernos. Leonard nunca escondeu sua inquietação nem sua fama de apaixonar-se pelo mundo inteiro. Marianne também compreendeu que amar um artista é aceitar que uma parte dele pertence às estradas.
vieram a separação, outros amores, outras cidades.
o curioso é que algumas despedidas nunca aprendem a ser definitivas.
eles continuaram amigos. escreveram cartas. acompanharam, de longe, o envelhecimento um do outro. há amizades que fazem aquilo que muitos casamentos não conseguem: permanecem.
em julho de 2016, Marianne recebeu o diagnóstico de uma leucemia fulminante. um amigo em comum avisou Leonard.
já velho, também com a saúde fragilizada, ele respondeu com uma carta que talvez seja uma das mais belas despedidas já escritas.
bem, Marianne, chegámos a este ponto em que somos tão velhos que os nossos corpos se desfazem; penso que te seguirei muito em breve… sabes que sempre te amei pela tua beleza e sabedoria… quero apenas desejar-te boa viagem. adeus, velha amiga. com todo o amor, encontrar-te-ei pelo caminho.
quando a carta lhe foi lida, Marianne sorriu.
depois estendeu a mão.
como quem ainda acreditava que algumas distâncias nunca são maiores do que um gesto.
ela morreu em 28 de julho de 2016.
três meses mais tarde, Leonard Cohen também partiu.
cumpriu, sem saber, a promessa que havia escrito.
há quem diga que coincidências não existem.
prefiro acreditar que certas histórias apenas conhecem o caminho de casa.
talvez seja por isso que, sempre que escuto Bird on the Wire ou So Long, Marianne, penso menos em um casal famoso e mais na delicadeza dos encontros improváveis. um convite para um vinho. uma conversa sem pressa. uma casa simples diante do mar. duas pessoas tentando ser livres sem abrir mão de pertencer uma à outra.
no fim das contas, talvez seja essa a única forma possível de amar.
como dois pássaros pousados no mesmo fio.
livres para voar.
felizes por permanecer.
