LuzeAZEVEDO
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aprendendo com o Frei.eUber

o jardim que floresce

existem provérbios que carregam séculos nas costas e, ainda assim, chegam até nós como sementes frescas, dessas que só precisam encontrar um pedacinho de terra para começar a vida. um deles, atribuído à sabedoria chinesa, diz assim: "se quiser ser feliz por uma semana, case-se; se quiser ser feliz por um mês, mate um porco; mas, se quiser ser feliz a vida toda, plante um jardim."

aprendendo com o Frei.eUber

o jardim que floresce

a felicidade não está apenas no jardim que floresce, mas na pessoa que continua cuidando dele, mesmo quando não há flores.

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o jardim que floresce

a inspiração da crônica o jardim que floresce, nasceu alimentada por duas conversas e dois passageiros que, à primeira vista, seguiam caminhos opostos. Ian, recém-casado, já sonha em deixar São Paulo para plantar seu próprio jardim ~ desses em que, além de flores, crescem filhos, afetos e novas gerações. Ramon fez o percurso contrário: trocou o calor e a familiaridade de Salvador, na Bahia, pelo caos paulistano, decidido a dar um up na carreira, mas sem deixar pelo caminho a alegria, o charme e aquele jeito soteropolitano de sorrir até quando a vida aperta.

um quer sair de São Paulo para fazer a família florescer. o outro chegou para cultivar o futuro profissional. dois homens, duas escolhas e a mesma coragem de acreditar que a felicidade também exige mudança.

foi assim que o autor Luze Azevedo se encontrou com sua própria criação ~ o Frei e.Uber. entre risadas, lembranças e aquela alegria de quem descobre que ainda há um mundo de estórias esperando para ser contado, criador e personagem celebraram o nascimento de aBordo, um livro destinado a reunir as aventuras, os encontros improváveis e as pequenas filosofias que o Frei vai recolhendo pelas ruas de São Paulo, enquanto a vida entra e sai de seu carro.

e pensar que tudo começa com o cultivo de um jardim na encantadora Itacaré, na Bahia!

[afinal, quem disse que uma boa estória precisa nascer onde será contada?]

às vezes, basta uma semente, um punhado de sonhos e dois sujeitos dispostos a acreditar que até as palavras, quando bem cuidadas, florescem.

confesso que, quando li esse provérbio pela primeira vez, ri. e ri com gosto.

afinal, é preciso reconhecer certa malícia nessa sabedoria antiga. colocar casamento, porco e jardim na mesma conversa não é coisa que se faça sem alguma experiência de vida [e, desconfio, algumas decepções pelo caminho].

mas há uma ironia mansa nessas palavras. um humor de quem já viu muita coisa, perdeu algumas, ganhou outras e aprendeu que a vida, quando não oferece motivos para comemorar, pelo menos fornece assunto para uma boa conversa.

o curioso é que, depois do riso, o provérbio não foi embora. ficou por ali, feito visita que se despede no portão, mas ainda encontra assunto para mais meia hora.

e foi então que uma palavra começou a me incomodar. dessas inquietações boas, que não tiram o sono, mas fazem a gente olhar duas vezes para aquilo que parecia tão simples.

florescer.

veja só. o velho ditado não diz que o jardineiro será feliz porque tem um jardim. diz que ele precisa plantar.

e plantar, convenhamos, é uma atividade que exige certa coragem. principalmente num mundo em que todo mundo quer colher antes mesmo de escolher a semente.

quem planta aceita esperar. aceita a chuva que não vem, o sol que vem demais, a formiga que aparece sem convite e aquela muda que, apesar de todos os cuidados, resolve não colaborar.

[plantas, assim como algumas pessoas, também têm suas teimosias.]

mas voltemos ao provérbio.

uma semana de felicidade para quem se casa. é a festa, a lua de mel, os abraços, as fotografias e aquela certeza absoluta de que o amor resolverá tudo. até que chega a primeira conta de luz, alguém esquece a toalha molhada sobre a cama e o romance descobre que também precisa aprender a conviver com a rotina.

não que o casamento dure apenas uma semana. longe disso. há amores que atravessam décadas e continuam florescendo. mas, para isso, precisam de alguma coisa que não costuma aparecer nas fotografias da cerimônia: cuidado.

depois vem o porco.

um mês de felicidade, segundo o ditado. mesa farta, família reunida, amigos chegando, conversa atravessando a tarde e aquela alegria legítima que só uma boa comida, acompanhada de gente querida, consegue proporcionar.

mas o banquete termina. a louça se acumula, os convidados vão embora e, no dia seguinte, alguém precisa descobrir o que fazer com as sobras.

[a felicidade gastronômica também tem seus prazos de validade.]

e então chega o jardim.

sem festa de casamento, sem leitão assado, sem promessas de felicidade imediata.

apenas terra, sementes, água e tempo.

sobretudo, tempo.

é aqui que a sabedoria do provérbio começa a mostrar sua verdadeira delicadeza. o jardim não é uma conquista que se pendura na parede, nem um troféu para exibir aos vizinhos. é um compromisso silencioso com aquilo que ainda não existe.

ninguém planta uma roseira esperando que ela floresça na manhã seguinte. ninguém exige de uma jabuticabeira que dê frutos porque chegou o fim de semana e a família resolveu fazer uma visita.

a natureza não trabalha com a nossa pressa. muito menos com as promessas. 

e talvez seja justamente por isso que ela tenha tanto a nos ensinar.

vivemos cercados de urgências. queremos respostas imediatas, resultados rápidos, amores sem conflitos, amizades sem ausências e felicidade com entrega expressa. se possível, sem frete.

aprendemos a comprar quase tudo. menos o tempo necessário para que certas coisas amadureçam.

o jardim, não.

ele exige presença.

é preciso perceber quando a terra está seca, quando uma folha adoece, quando um galho precisa ser podado. e, vez ou outra, aceitar que alguma coisa não vingou, apesar de todo o nosso esforço.

isso também faz parte.

porque cuidar não é garantir que tudo dê certo. é continuar presente mesmo quando alguma coisa dá errado.

e aqui o jardim deixa de ser apenas jardim.

passa a ser aquela amizade antiga que sobrevive às distâncias. o amor que já não precisa de grandes declarações para existir. o conhecimento adquirido aos poucos. a conversa com um filho. a atenção dedicada a quem envelhece. o café compartilhado sem olhar para o relógio.

são pequenos cultivos que raramente aparecem nas grandes celebrações da vida, mas que sustentam boa parte da nossa alegria.

há também os jardins que ninguém vê.

aqueles que cultivamos por dentro.

a paciência que aprendemos depois de tantas impaciências. o perdão que demorou a chegar. a coragem de recomeçar quando tudo parecia perdido. a serenidade de compreender que nem toda pergunta precisa de resposta e que nem toda ausência significa abandono.

esses jardins, talvez, sejam os mais difíceis de cuidar.

não recebem aplausos, não aparecem nas fotografias e dificilmente despertam a inveja dos vizinhos.

mas são eles que nos permitem atravessar certas estações sem perder completamente a primavera.

e há uma coisa bonita nisso tudo: um jardim nunca está definitivamente pronto.

sempre haverá uma folha nova, uma flor que se despede, uma semente trazida pelo vento. às vezes, nasce até uma erva daninha no meio das nossas melhores intenções.

[a vida tem dessas liberdades que não nos pede licença para exercer.]

talvez a felicidade seja exatamente assim.

não um estado permanente de alegria, porque ninguém consegue sorrir o tempo inteiro sem acabar parecendo propaganda de creme dental.

mas uma disposição para continuar cultivando a vida, mesmo sabendo que haverá dias nublados, flores murchas e canteiros vazios.

felicidade, afinal, não é ausência de tristeza.

é saber que, mesmo depois dela, alguma coisa ainda pode florescer.

penso nisso quando vejo alguém regando uma planta na janela de um apartamento. ou um senhor cuidando de meia dúzia de vasos na calçada, como se administrasse os jardins suspensos da Babilônia. há uma grandeza discreta nesses gestos.

ninguém está salvando o mundo com um regador.

mas, de alguma maneira, está impedindo que um pequeno pedaço dele seque.

e isso não é pouca coisa.

talvez seja por essa razão que o velho provérbio continue circulando por aí, atravessando gerações sem perder o viço. não porque ofereça uma fórmula infalível para a felicidade, mas porque nos lembra de algo que a pressa costuma fazer esquecer: a alegria mais duradoura nem sempre está naquilo que recebemos. muitas vezes, está naquilo de que escolhemos cuidar.

no fim das contas, casamento, banquete e jardim não são tão diferentes assim. todos podem proporcionar felicidade. todos exigem alguma forma de dedicação. e todos, quando abandonados, acabam perdendo aquilo que tinham de melhor.

a diferença talvez esteja na maneira como aprendemos a olhar para eles.

há quem queira apenas as flores.

há quem se encante com os frutos.

e há quem descubra, depois de muito viver, que o verdadeiro milagre estava naquele gesto aparentemente banal de colocar as mãos na terra e acreditar que alguma coisa boa ainda poderia nascer.

eu fico com essa última possibilidade.

não porque tenha aprendido todos os segredos da felicidade. longe disso. ainda confundo algumas sementes, exagero na água e, de vez em quando, insisto em cultivar o que já não tem raízes.

mas sigo aprendendo.

e, enquanto houver tempo, alguma terra disponível e um pouco de esperança, pretendo continuar plantando.

afinal, a vida não nos promete primavera o ano inteiro.

mas sempre pode nos oferecer uma nova oportunidade de florescer.

e, pensando bem, já é um belo motivo para acordar amanhã e pegar o regador.

sou contador de estórias e não aceito ~ hoje, hoje não! ~ o rótulo de escritor.
escritor, para mim, é quem mora nas bibliotecas. eu moro nas ruas, nos balcões dos botecos e nas mesas onde o café esfria enquanto a conversa esquenta.
meu apego pelas palavras nasce ali, onde a vida acontece sem revisão e cada boa estória sempre encontra alguém disposto a aumentá-la só um cadinho mais.
um Santista, vivendo e aprendendo a jogar; nem sempre ganhando; nem perdendo; mas, aprendendo a jogar!
Luze Azevedo | eco.das.letras

o Frei, que de jardineiro não entende muita coisa [mas de gente que carrega sonhos no banco de trás já entende um bocado], descobriu que cada passageiro traz consigo uma semente de estória.

Luze percebeu que havia ali mais que uma crônica. havia um livro inteiro esperando para nascer.

e assim começa aBordo ~ não com a promessa de chegar a algum lugar, mas com a alegria de descobrir o que floresce pelo caminho.

porque há viagens que terminam no destino. outras, quando bem contadas, continuam dentro da gente.

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Luze Azevedo

Luze Azevedo é contador de estórias, cronista e criador de projetos culturais. transita entre a literatura, o jornalismo cultural e a educação emocional, sempre com o ouvido colado no cotidiano e o olhar atento às pequenas cenas que dizem muito.

é autor de Endora, Novas Memórias, obra revisitada trinta anos depois do primeiro lançamento, e criador de narrativas como Crônicas que GPS não registra e do personagem Frei e.uBer, que observa o mundo a partir do banco da frente de um carro em movimento.

escreve para blogs e projetos autorais, desenvolve conteúdos educacionais e literários, e mantém presença ativa nas redes, especialmente no Instagram, onde publica capítulos, crônicas e reflexões.

a essência do seu trabalho reside na escuta atenta, na força da memória e no poder da palavra despojada: aquela que, sem alarde, que ecoa em silêncio e permanece.