LuzeAZEVEDO
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Paúba, Meu Mar

crônicas de um lugar onde meu mundo é de gente

onde o sol me devolve ao meu tamanho

tem lugares que a gente deixa para trás, mas que se recusam a ir embora. Paúba é assim. basta a saudade apertar para eu sentir de novo o pé na areia, ouvir o mar e procurar, no fim da tarde, aquele sol vermelho descendo devagar no horizonte. talvez porque alguns lugares não sejam apenas lugares ~ são pedaços da vida que, quando a gente vai embora, continuam esperando pela gente.

Paúba, Meu Amor

parodiando Dorival Cayme

quem olha o mar nunca sabe se está vendo uma chegada ou uma despedida.
o mar
quando quebra na praia
é bonito…
o sol
quando morre no horizonte
é bonito também.
mas há uma coisa que ninguém conta: quem olha o mar nunca sabe exatamente se está vendo uma chegada ou uma despedida.

pescador quando sai nunca sabe se volta.

basta a saudade apertar um pouco e lá estou eu outra vez ~ pé na areia, ouvindo o mar e esperando aquele instante em que o sol vira uma enorme bola vermelha em chamas, mergulha no horizonte e, antes de desaparecer, lembra a nós, tão cheios de pressa e certezas, o tamanho que realmente temos.

onde o sol me devolve ao meu tamanho

Paúba é um encanto 365 dias do ano ~ até no frio, que por aqui quase nunca dá as caras. e o encanto começa até pelo nome da praça: Praça Beija-Flor.

eu, se consultado fosse, teria chamado de Praça do Pôr do Sol. porque é ali que eu finco meus pés na areia, diante do mar, e, junto dos Caiçaras que vivem no entorno, me entrego ao que talvez seja uma das melhores coisas da vida: simplesmente estar.

estar ali, vendo o dia se despedir, o céu mudar de cor e o sol mergulhar devagar no mar.

sem pressa.

sem querer mais nada.

só agradecendo por estar em Paúba.

estou com saudades de Paúba.

do mar, do pé na areia e, principalmente, daquele pôr do sol, lá, naquele pedaço de paraíso onde o dia parece demorar um pouco mais para ir embora.

talvez porque, em Paúba, até o tempo pareça ter aprendido a andar devagar.

há alguma coisa naquele pôr do sol ~ uma coisa que não sei explicar direito ~ que nos devolve ao nosso tamanho. o sol começa a descer, enorme, vermelho, em chamas, enquanto o mar fica ali, quieto, recebendo aquela bola de fogo como quem já conhece o ritual de cor.

não há espetáculo anunciado. não tem ingresso. ninguém pede aplauso. o sol simplesmente vai embora. e a gente fica.

olhando.

talvez seja aí que esteja a graça. porque passamos boa parte da vida tentando controlar tudo. o horário, os planos, as pessoas, o futuro, o que os outros pensam, aquilo que ainda nem aconteceu.

e então chega o fim da tarde em Paúba e o sol nos dá uma pequena aula de humildade. ele não pergunta se estamos prontos. não espera terminar a conversa. não adia porque ainda temos alguma coisa importante para resolver.

simplesmente se põe.

e, diante daquela imensidão, a gente percebe que talvez não seja tão importante assim.

é mágico estar ali, vendo o dia se despedir, o céu mudar de cor e o sol mergulhar devagar no mar.

sem pressa.

sem querer mais nada.

só agradecendo por estar em Paúba.

por alguns minutos, deixamos de ser o centro do mundo. somos apenas alguém sentado diante do mar, com os pés na areia e os olhos perdidos no horizonte. e talvez seja justamente isso que a gente procura quando viaja. não um lugar bonito.

mas uma versão nossa que ficou escondida em algum lugar do caminho. em Paúba, eu me lembro de respirar diferente. de olhar sem procurar. de ficar em silêncio sem sentir que precisava preenchê-lo. de não querer fotografar tudo, explicar tudo, postar tudo.

havia apenas o mar. o céu. o sol. e eu.

às vezes, a vida é isso.

uma coisa simples que a gente complica porque tem medo de que a simplicidade seja pouco. não é!?

pouco é passar pela vida inteira correndo atrás de coisas que, quando finalmente alcançamos, descobrimos que não eram aquilo que imaginávamos.

o sol se põe todos os dias. indiferente às nossas certezas, às nossas pressas, aos nossos planos e à nossa velha mania de achar que amanhã teremos tempo. talvez por isso ele seja tão bonito. porque todos os dias ele vai embora. e todos os dias volta. sem fazer promessa. sem discurso. sem garantia.

apenas volta.

nós é que temos dificuldade com isso. achamos que tudo precisa permanecer. as pessoas. os lugares. os amores. a juventude. os domingos. as mesas cheias. os abraços. até aqueles momentos que sabemos, lá no fundo, que já estão se despedindo enquanto acontecem.

Paúba também ficou para trás. 

a gente vai embora levando fotografias, lembranças, o cheiro do mar e aquela areia teimosa que aparece dias depois no fundo da mala [como quem se recusa a aceitar que a viagem terminou]. mas não leva tudo. alguma coisa fica.

fica na areia molhada. no barulho das ondas. naquele céu que, por alguns minutos, parece pegar fogo. fica no homem que fomos enquanto estávamos ali. e talvez seja por isso que a saudade aperte.

porque a verdade é que a gente quase nunca sente saudade apenas de um lugar. sente saudade de quem era naquele lugar. eu não sinto falta somente de Paúba.

sinto falta daquele sujeito que podia ficar diante do mar sem precisar resolver a vida. que conseguia olhar o horizonte e, por alguns minutos, não ter pressa de chegar a lugar nenhum. sinto falta de mim. e talvez seja isso que os lugares que amamos fazem conosco.

eles guardam versões nossas que o tempo, essa criatura apressada, vai deixando pelo caminho. por isso voltamos. às vezes com o corpo. às vezes apenas com a memória.

voltamos para uma praia, uma rua, uma casa, um copo, uma mesa, um violão, uma música. não porque o lugar tenha ficado exatamente como era. mas porque alguma coisa nossa ainda está lá. esperando.

talvez a vida seja essa viagem estranha entre ir e ficar.

a gente passa por lugares, pessoas e momentos acreditando que está apenas vivendo.

quando percebe, está colecionando despedidas. um dia é o último pôr do sol de uma viagem. outro, o último almoço com alguém. depois, sem que ninguém avise, chega o último abraço, a última conversa, o último verão em que éramos exatamente quem éramos.

a vida não costuma colocar placas nessas esquinas. se colocasse, talvez prestássemos mais atenção.

por isso, enquanto ainda há mar, entre no mar. enquanto houver alguém para abraçar, abrace. enquanto houver um pôr do sol, pare para vê-lo. não porque tudo acaba. mas justamente porque tudo passa. e há uma diferença enorme entre saber disso e realmente sentir. talvez seja por isso que eu esteja com saudades de Paúba.

do mar, é claro. da areia. daquele pôr do sol. mas, sobretudo, daquela sensação quase infantil de que, por alguns minutos, o mundo podia continuar girando sem a minha ajuda.

e eu podia simplesmente estar ali. inteiro. sem pressa. sem querer mais nada. só agradecendo.

porque, no fim das contas, talvez a vida seja exatamente isso: um pôr do sol bonito demais para durar, um pouco de areia no fundo da mala, uma saudade que chega sem avisar e a descoberta, quase sempre tardia, de que os melhores momentos não estavam esperando por nós no futuro.

eles já tinham acontecido.

a gente é que estava ocupado demais para perceber.

sou contador de estórias e não aceito ~ hoje, hoje não! ~ o rótulo de escritor.
escritor, para mim, é quem mora nas bibliotecas. eu moro nas ruas, nos balcões dos botecos e nas mesas onde o café esfria enquanto a conversa esquenta.
meu apego pelas palavras nasce ali, onde a vida acontece sem revisão e cada boa estória sempre encontra alguém disposto a aumentá-la só um cadinho mais.
um Santista, vivendo e aprendendo a jogar; nem sempre ganhando; nem perdendo; mas, aprendendo a jogar!
Luze Azevedo | eco.das.letras

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Luze Azevedo

Luze Azevedo é contador de estórias, cronista e criador de projetos culturais. transita entre a literatura, o jornalismo cultural e a educação emocional, sempre com o ouvido colado no cotidiano e o olhar atento às pequenas cenas que dizem muito.

é autor de Endora, Novas Memórias, obra revisitada trinta anos depois do primeiro lançamento, e criador de narrativas como Crônicas que GPS não registra e do personagem Frei e.uBer, que observa o mundo a partir do banco da frente de um carro em movimento.

escreve para blogs e projetos autorais, desenvolve conteúdos educacionais e literários, e mantém presença ativa nas redes, especialmente no Instagram, onde publica capítulos, crônicas e reflexões.

a essência do seu trabalho reside na escuta atenta, na força da memória e no poder da palavra despojada: aquela que, sem alarde, que ecoa em silêncio e permanece.