dançar na chuva, quando a chuva vem.
a felicidade é um estado de espírito. não sei se mora nas grandes conquistas, nas fotografias em que todo mundo sorri ou naquela ideia meio publicitária de que, depois de alcançarmos alguma coisa, finalmente seremos felizes.
talvez seja mais simples.
talvez felicidade seja aceitar o presente sem exigir que ele seja outro.
hoje, igual ao ontem, choveu. e a melancolia, que tem dessas intimidades que ninguém convidou, quis me abraçar.
eu poderia ter fechado as janelas, reclamado do tempo, procurado alguma distração. mas fiz café e parei para ouvir a chuva.
fiquei olhando a rua.
a água escorrendo pela calçada, desenhando caminhos que ninguém planejou. molhando minhas plantinhas, lavando a poeira das folhas, fazendo do mundo uma coisa um pouco mais silenciosa.
e, na vitrola ~ sim, eu adoro esse som de vitrolinha, rs ~ Marcelo Jeneci cantava:
“felicidade é só questão de ser
quando chover, deixar molhar
pra receber o sol quando voltar…”
e pensei que talvez seja exatamente isso.
a gente passa boa parte da vida procurando felicidade no outro, como se alguém pudesse chegar com a chave certa e abrir a porta que só nós mesmos podemos abrir.
mas o outro é outro.
o “dois” nunca vira “um”.
há sempre um desencontro. uma distância mínima entre duas pessoas, mesmo quando elas se amam. cada um carrega sua história, seus medos, suas faltas, suas maneiras particulares de enxergar o mesmo céu.
e talvez seja justamente aí que Lacan tenha acertado.
sintonia não é encontrar alguém igual. tampouco encontrar alguém perfeito ~ essa criatura, felizmente, não existe.
sintonia talvez seja a coragem de inventar um laço possível com alguém sabendo que o encaixe perfeito é impossível.
amar não seria eliminar a distância, mas aprender a atravessá-la.
e felicidade, talvez, seja não colocar sobre os ombros de outra pessoa a responsabilidade de nos fazer felizes.
quando somos felizes em nós, a felicidade parece nos encontrar pelo caminho.
às vezes vem com o sol.
às vezes vem com um café.
às vezes vem na forma de chuva, escorrendo pela calçada e molhando as plantas.
e às vezes chega baixinho, pela agulha de uma vitrola, lembrando que a vida não precisa estar inteira no lugar para que a gente dance.
porque há um lugar em que o sol brilha para você.
e também há dias de chorar, sorrir e depois dançar.
na chuva, quando a chuva vem.

![Para Val [amore] Lipari](https://luzeazevedo.com.br/wp-content/uploads/2012/03/pexels-juliasakelli-1011292-scaled.jpg)
