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6 de setembro de 2012 por Luze Azevedo

dançar na chuva, quando a chuva vem

dançar na chuva, quando a chuva vem
6 de setembro de 2012 por Luze Azevedo

dançar na chuva, quando a chuva vem.

a felicidade é um estado de espírito. não sei se mora nas grandes conquistas, nas fotografias em que todo mundo sorri ou naquela ideia meio publicitária de que, depois de alcançarmos alguma coisa, finalmente seremos felizes.

talvez seja mais simples.

talvez felicidade seja aceitar o presente sem exigir que ele seja outro.

hoje, igual ao ontem, choveu. e a melancolia, que tem dessas intimidades que ninguém convidou, quis me abraçar.

eu poderia ter fechado as janelas, reclamado do tempo, procurado alguma distração. mas fiz café e parei para ouvir a chuva.

fiquei olhando a rua.

a água escorrendo pela calçada, desenhando caminhos que ninguém planejou. molhando minhas plantinhas, lavando a poeira das folhas, fazendo do mundo uma coisa um pouco mais silenciosa.

e, na vitrola ~ sim, eu adoro esse som de vitrolinha, rs ~ Marcelo Jeneci cantava:

“felicidade é só questão de ser
quando chover, deixar molhar
pra receber o sol quando voltar…”

e pensei que talvez seja exatamente isso.

a gente passa boa parte da vida procurando felicidade no outro, como se alguém pudesse chegar com a chave certa e abrir a porta que só nós mesmos podemos abrir.

mas o outro é outro.

o “dois” nunca vira “um”.

há sempre um desencontro. uma distância mínima entre duas pessoas, mesmo quando elas se amam. cada um carrega sua história, seus medos, suas faltas, suas maneiras particulares de enxergar o mesmo céu.

e talvez seja justamente aí que Lacan tenha acertado.

sintonia não é encontrar alguém igual. tampouco encontrar alguém perfeito ~ essa criatura, felizmente, não existe.

sintonia talvez seja a coragem de inventar um laço possível com alguém sabendo que o encaixe perfeito é impossível.

amar não seria eliminar a distância, mas aprender a atravessá-la.

e felicidade, talvez, seja não colocar sobre os ombros de outra pessoa a responsabilidade de nos fazer felizes.

quando somos felizes em nós, a felicidade parece nos encontrar pelo caminho.

às vezes vem com o sol.

às vezes vem com um café.

às vezes vem na forma de chuva, escorrendo pela calçada e molhando as plantas.

e às vezes chega baixinho, pela agulha de uma vitrola, lembrando que a vida não precisa estar inteira no lugar para que a gente dance.

porque há um lugar em que o sol brilha para você.

e também há dias de chorar, sorrir e depois dançar.

na chuva, quando a chuva vem.

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caçador de palavras

sou contador de estórias e não aceito ~ hoje, hoje não! ~ o rótulo de escritor.
escritor, para mim, é quem mora nas bibliotecas. eu moro nas ruas, nos balcões dos botecos e nas mesas onde o café esfria enquanto a conversa esquenta.
meu apego pelas palavras nasce ali, onde a vida acontece sem revisão e cada boa estória sempre encontra alguém disposto a aumentá-la só um cadinho mais.

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Luze Azevedo

Luze Azevedo é contador de estórias, cronista e criador de projetos culturais. transita entre a literatura, o jornalismo cultural e a educação emocional, sempre com o ouvido colado no cotidiano e o olhar atento às pequenas cenas que dizem muito.

é autor de Endora, Novas Memórias, obra revisitada trinta anos depois do primeiro lançamento, e criador de narrativas como Crônicas que GPS não registra e do personagem Frei e.uBer, que observa o mundo a partir do banco da frente de um carro em movimento.

escreve para blogs e projetos autorais, desenvolve conteúdos educacionais e literários, e mantém presença ativa nas redes, especialmente no Instagram, onde publica capítulos, crônicas e reflexões.

a essência do seu trabalho reside na escuta atenta, na força da memória e no poder da palavra despojada: aquela que, sem alarde, que ecoa em silêncio e permanece.