o ato de perdoar, dizem, é libertador.
talvez seja.
há perdões que afrouxam as correntes, soltam os grilhões e devolvem à alma aquele pequeno espaço que a gente nem sabia mais que existia. como quando abrimos uma janela depois de muitos dias de casa fechada e descobrimos que o ar, apesar de tudo, continuava lá fora.
mas nem todo perdão liberta.
há um tipo de perdão que mantém os pés presos ao passado. uma espécie de armadilha emocional, dessas que chegam vestidas de virtude e ainda recebem aplausos.
é o perdão que a gente oferece, mas continua cobrando.
perdoa, mas lembra. perdoa, mas vigia. perdoa, mas volta à cena toda vez que encontra uma brecha.
é curioso como algumas pessoas conseguem transformar o perdão em uma espécie de assinatura de contrato com a própria dor. dizem que encerraram o assunto, mas continuam morando nele ~ fazem pequenas reformas, trocam as cortinas, talvez até comprem uma televisão nova. e chamam isso de seguir em frente.
esse é o perdão que não edifica. não ilumina. não cura.
parece ouro à primeira vista, mas o tempo revela a ferrugem.
porque perdoar não deveria ser uma
eu perdoei ou apenas aprendi a carregar a corrente com mais elegância?
maneira sofisticada de continuar ligado àquilo que nos feriu.
talvez o verdadeiro perdão seja uma coisa bem menos grandiosa do que costumamos imaginar.
não é esquecer. não é fingir que não doeu. não é transformar quem nos machucou em uma boa pessoa só porque decidimos não odiá-la mais. e também não significa abrir novamente a porta para quem já nos ensinou, pela dor, que não sabe entrar sem quebrar alguma coisa.
talvez perdoar seja apenas parar de carregar. colocar a mala no chão. sentar um pouco. respirar.
e perceber que aquilo que aconteceu continua fazendo parte da nossa história, mas já não precisa ocupar a sala inteira.
há uma diferença enorme entre lembrar da corrente e continuar preso a ela.
a corrente pode permanecer na memória. o que não precisa permanecer é o peso.
e talvez seja aí que o perdão começa de verdade ~ não quando absolvemos o outro, mas quando deixamos de entregar a ele o aluguel do espaço que ocupa dentro de nós.
porque algumas pessoas saem da nossa vida há anos.
só esquecem de levar a chave.
o desejo de encontrar algum sentido
dizem que perdoar é libertador. talvez seja. mas há perdões que parecem abrir a porta e, quando a gente percebe, continuam segurando a chave.


