a chuva havia dado uma trégua em Paúba, trazendo aquele cheiro de terra molhada misturado ao sal do mar. o céu, ainda carregado de nuvens cinzentas, parecia hesitar entre a melancolia do temporal e o brilho de um sol tímido, que tentava se infiltrar pelas frestas das nuvens.
foi nesse cenário que ela surgiu, caminhando pela areia úmida, como se o próprio dia se inclinasse para saudá-la.
seu sorriso era um farol.
não daqueles espalhafatosos, que exigem atenção em qualquer multidão. o dela era outro tipo de magia. surgia suave, quase distraído, e parecia dançar no ritmo da brisa marítima. não era um sorriso para ser apenas visto, mas sentido.
e eu senti.
sentados à mesma distância do mar, mas em mundos diferentes, eu, com o caderno no colo, rabiscava palavras que ainda procuravam algum sentido. ela, com os pés descalços, parecia não escrever, mas caminhar entre histórias, construindo com gravetos uma pequena escultura.
seus olhos capturavam o horizonte, como se o azul escondesse respostas que só ela soubesse interpretar.
— parece que o mar quer nos empurrar um pouco mais para perto dele ~ disse, com aquela voz que já carregava a melodia de quem sabe acolher.
conversamos sobre o clichê e a poesia dos dias nublados. ela falava com a sabedoria de quem já havia enfrentado tempestades, mas sabia que cada uma delas trazia, de algum modo, a promessa de um arco-íris.
perguntou o que eu rabiscava.
mostrei os versos inacabados.
seu olhar brilhou.
— você escreve o que sente ou sente o que escreve? ~ perguntou.
e me deixou sem resposta.
e completamente fascinado.
mais tarde, o sol finalmente venceu a batalha contra as nuvens. o céu ganhou cores vibrantes e Paúba, antes melancólica, transformou-se num quadro de tons dourados e alaranjados.
ela olhou para aquele espetáculo e comentou, quase num sussurro:
— tem coisas que a gente só entende quando para para olhar.
aquele sorriso, que não era farto nem escandaloso, mas tinha a medida exata para iluminar um coração carente de luz, me deu adeus.
nos abraçamos.
e foi naquele instante que compreendi, ou imaginei compreender, o poder de uma conexão de coração com coração, batendo no mesmo compasso.
era como se ela tivesse, por alguns minutos, a chave capaz de reorganizar os desalinho do meu dia.
ao vê-la partir, percebi que não havia perguntado seu nome.
e, estranhamente, não fez falta.
há pessoas que não precisam de nome, título ou etiqueta. algumas são apenas o instante em que acontecem.
são presença. são passagem. são uma pequena renovação que a vida nos oferece sem explicar o motivo.
quando voltei ao caderno, as palavras pareciam fluir com outra clareza.
e, no meio daquelas linhas, escrevi: “ela tem um sorriso que é remédio, um raio de sol que aquece até os dias mais tempestuosos.”
Paúba nunca mais foi a mesma para mim.
e eu nunca mais fui o mesmo diante do papel.


![Para Val [amore] Lipari](https://luzeazevedo.com.br/wp-content/uploads/2012/03/pexels-juliasakelli-1011292-scaled.jpg)